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Mais do que uma celebração socialista o 1º de Maio precisa ser visto como um marco no avanço dos direitos do trabalhador e dos direitos humanos em geral. Hoje a jornada de trabalho de 8 horas nos serve de parâmetro, porém nem sempre foi assim. Os documentos históricos do século XIX revelam às péssimas condições de trabalho as quais os trabalhadores, de diferentes idades, eram submetidos. Na obra O Capital, Carl Marx descreve os inúmeros abusos e as situações degradantes e de mutilação que os trabalhadores europeus sofriam no auge da revolução industrial.
Talvez o mais importante continue em segundo plano por muitos anos à frente, mas eu espero que não. As conquistas trabalhistas obtidas pelos trabalhadores do mundo inspiradas nas teorias socialista e anarquista, tinham como pano de fundo a defesa dos direitos humanos. Mesmo Marx, por muitos anos, buscou desvendar dentro de sua própria teoria o enigma humanista deixado por Hegel (Georg Wilhelm Friedrich Hegel). Esta raiz filosófica é constatada na crítica de Marx à negação da natureza humana durante o processo de trabalho. Essencialmente, constatava-se no século XIX que o ser humano tornava-se mais uma máquina durante o processo de trabalho e, assim roubava-se do trabalhador a parcela maior da sua vida (+trabalho = menos vida) em prol do ideal liberal de “progresso” e riqueza no futuro.
Hoje, após três revoluções industriais e na contemporaneidade de uma economia globalizada, o ser humano está absolutamente seduzido e rendido a mobilidade do Capital. Esta mobilidade extremada é exposta diariamente nos noticiários econômicos com os informes sobre alta ou baixa das moedas e Bolsas de Valores do mundo. Ao mesmo tempo, torna claro que o Capital sofisticou sua estratégia de autoperpetuação (sobrevivência própria), porque ele agora não precisa mais se submeter à “indisciplina e rebeldia” dos poucos trabalhadores organizados que restam no globo. Objetivamente, onde há trabalhadores organizados a ponto de interferirem na “taxa de lucro” não haverá Capital em abundância.
Apesar da ação persistente e desumana do Capital, o ser humano continua sendo aquilo que sempre foi. Um carente de vida - nós temos carência de viver e, hoje acreditamos que teremos mais vida se tivermos mais bens (coisas). Ao analisarmos Adam Smith percebemos que a Ciência Econômica é sustentada pela emoção humana. O Homem, ao exercer socialmente sua ambição e egoísmo, estaria gerando riqueza e acumulação constantes.
Hoje eu vejo que não é isto. O ser humano é ambicioso porque quer ser aceito e sente medo da rejeição. Ele quer “ter” para provar que tem valor (ser importante), apesar dos seus vícios e desvios comportamentais. Ele quer a maior quantidade de atenção possível, e continuará buscando esta sensação (emoção), que adquiriu ainda nos braços maternos. O Ser Humano faz isso simplesmente porque nunca parou para pensar que para ser aceito, não é preciso ter nada além do necessário, mas sim querer ser pleno de personalidade e autenticidade.
Cabe ao “sistema” buscar, de todas as formas, meios para nos impedir de refletir sobre nossos próprios anseios de querer mais vida e de sermos nós mesmos - o “sistema” se alimenta das nossas “emoções/carências”. O sistema tentará nos entupir de uma oferta crescente e incessante de novas “necessidades/carências” industriais - aparentemente essenciais a nossa sobrevivência social. Não satisfeito, continuará incutindo em nossas mentes o sagrado “medo” de cada dia, para nos manter afastados da nossa comunidade e dos nossos desejos mais íntimos.
O ser humano deve enfrentar o desafio de encontrar a sua realização altruísta por meio do trabalho também, além da simples sobrevivência. Para isto, a humanidade precisará evoluir da insanidade do “ter para ser” para a integralidade do “Ser pleno de personalidade e livre arbítrio”. Para isto, a sociedade precisa ser transformada para respeitar, valorizar e acolher a infinita diversidade humana.
Por meio do trabalho é que o ser humano deve vencer a luta pela sobrevivência. E, uma nova reivindicação está mais forte a cada dia: o direito ao trabalho. Por todo o mundo observamos que as pessoas reclamam as suas parcelas de dignidade cobrando do “sistema” a geração de mais emprego, porque hoje cerca de um terço da humanidade vive a baixo da linha da pobresa. A redução da jornada de trabalho, a substituição do nosso modelo de consumo descartável, a geração de mais postos de trabalho dignos, a valorização da educação para a paz e a fraternidade são metas a serem alcançadas. E o fruto destas novas conquistas será a integração do ser humano ao Universo harmônico e acolhedor ao qual fazemos parte.
É a consciência desta motivação interna de ser parte do cosmo, freqüentemente abafada pelas nossas emoções infantis, que nos moverá ao mundo melhor do futuro. Hoje vivemos o momento histórico de redefinir o futuro a partir da soma dos diversos comportamentos individuais, independentemente da ação repressora do “sistema”, porque nenhuma força no Mundo é capaz de impedir o ser humano de exercer a sua própria liberdade e livre-arbítrio sem que ele permita isso. O que eu desejo é que o exercício da liberdade e livre arbítrio responsáveis, proporcione aos trabalhadores do mundo o crescente desfrute do tempo em prol da sua cidadania universal.
Ricardo Ramos
Economista e Consultor de Projetos e Finanças